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Multigrafias - intervenção urbana FOZ DO IGUACU

Primeiro andar, depois voar.






Centro de Foz do Iguaçu.
Natal, 2008.

Texto: Gabriela Canale.
Ilustração: Vital Lordelo.
Interferências: Margareth Miola e Marina Canale









intervenção na cidade PORTO ALEGRE

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Cidade Baixa Porto Alegre -RS - Brasil
texto de Gabriela Canale
Ilustração Vital Lordelo

PALAVRAIMAGEM - O encontro entre estações

Foto: Gabriela Canale

Passou toda viagem de trem procurando sinais da primavera, observando atentamente pela janela as bases dos muros que protegiam a linha férrea e além dos muros, até onde a vista alcançava, e tudo que conseguiu ver foram árvores secas, mato alto, o cinza comum, vermelho barro e o rosa dos tapumes de uma invasão desenfreada, que cresce dia após dia, com sentido e rumo a capital. Nada havia mudado naquele inicio de primavera
Naquela manhã o vagão estava lotado, restavam ainda quatro estações até seu desembarque, cansando da mesmice de todo dia, fechou os olhos e ficou a ouvir a máquina que avançava sobre o trilho e a sentir a brisa que vinha da janela...
O maquinista anuncia à quinta estação, alheio a tudo, continua de olhos fechados, ainda lhe restavam três estações, sabendo da rotina dos passageiros, acreditava que abrindo os olhos com certeza algumas pessoas ele conheceria de vista. Afinal havia completado há uma semana, três anos naquela mesma rotina.
Permanece de olhos fechados até que um doce aroma lhe interessa e o solavanco do trem lhe faz abrir os olhos e ao seu lado, ele vê a Primavera que na quinta estação subiu ao trem com um perfume doce e um vestido de chita.
A Primavera que ele buscava ver da janela durante o caminho apareceu desabrochada, estampada, colorida e perfumada ao seu lado e lendo um livro de contos de literatura portuguesa.
Ficou tão maravilhado, que não contou as estações e alheio a tudo desceu do vagão com olhos carregados de fascinio e adeus, duas paradas depois.
Voltou o olhar e acompanhou o trem seguir viagem levando a Primaveira.
conto: Vital Lordelo

Primeiro Andar


                                  Ilustração: Vital Lordelo


É possível escrever a cidade?
Codificar esta massa misturada que habita em mim?
Caminho pelas veias turbulentas e pergunto:
quem mora em quem?
quem é o habitante?
quem é o habitado, ela ou eu?

"São Paulo é cruel", repetem.
Eu estranho, acho tão generosa e voraz.
Esfingíca cartografia.

Não decoro mapas.
Transito cegamente nos subeterrâneos de concreto:
eu sei voar sobre trilhos e surfar em calçadas. 


                                                               texto:  Gabriela Canale 

Brisa

                                   Foto: Gabriela Canale

Lavou todas as roupas e estendeu no varal, aproveitando o Sol do Sábado. 

Colocou Brisa, a alegre companheira na corrente, que por sua vez resmungava a falta de confiança.

Fecha as portas e janelas e vai para a casa da Tia Lara, para o chá da tarde, porém esquece de soltar a cadela.

O tempo fecha durante sua visita, uma chuva se anuncia, dessas que barco seria o melhor transporte nas ruas de Porto Alegre.

Enquanto toma seu chá, pensa na roupa que se encharca no varal e na pobre Brisa, encolhida, ao relento e sozinha naquela tempestade.

Fica impossibilitada de volta pra casa, não existe um taxista que aventure a atravessar a cidade, naquele dia eram cachoeiras que desciam das nuvens.

No dia seguinte entra em casa desesperada e corre para o quintal

Não acreditou na visão que teve, queria matar Brisa, que a olhava com olhos de inocência e balançava seu meio rabo.

Brisa  desenvolveu habilidade na técnica de recolher a roupa do varal,  como também as coloca sempre juntas e lógico, deita em cima.

E não adiantou ter ido para coleira.

A vira-lata, medrosa, arrebentou  a surrada tira de couro no primeiro trovão, estava seca e tinha passado a noite bem aquecida sobre as roupas retiradas do varal.

Vermelho / New York

Foto: Gabriela Canale

Acorda com uma dor de cabeça daquelas em que os sentidos parecem dobrar ao simples toque do telefone.

Levanta e vai ao banheiro apoiando se nas paredes, vê no espelho o reflexo da maquiagem sensual da noite passada, que agora lhe borra a face, deixando aparente sua real beleza.

Molha o rosto e vestida apenas com uma peça de roupa, vai escorada do banheiro a cozinha em busca de água e remédios.

Abre o armário, com uma das mãos apóia se na pia, fica de ponta, com a outra tateia na segunda prateleira, encontra a cartela, retira um, abre a geladeira, que está repleta de nada e uma jarra mineral.

Engole o comprimido e bebe na jarra, que larga não lhe toma toda boca, escorre, molha o corpo, um quase banho, e na tentativa de secar a pele passa uma das mãos, do seio ao abdômen espalha o rastro feito de água, que ainda percorre, seu seio enrijece, a pele arrepia, ao sentir o percurso d’água sobre a pele, agora já na coxa.

E tomada por um sentimento alheio a explicações, relembra toda noite como um filme ao olhar o Vermelho/New York nas unhas.

Volta para cama, a flor da pele, afinal é Domingo.